O que dizem as paredes Almada Negreiros e a pintura mural

 

José de Almada Negreiros (1893-1970) foi um artista que se desdobrou pela escrita, pelas artes performativas e pelas artes plásticas. Da poesia à dança, das artes gráficas à lanterna mágica, experimentou variadas linguagens e marcou a vanguarda e a modernidade em Portugal, bem como em Madrid, onde viveu e trabalhou cinco anos. A partir de 1933, a ditadura do Estado Novo passou a controlar de forma mais intensa e programática a produção cultural. Os artistas modernistas que se tinham destacado nos anos anteriores respondem a encomendas estatais, de que dependem economicamente, sobretudo para trabalhar na decoração de edifícios e obras públicas. Almada Negreiros fará azulejos, vitrais e pintura mural. Os seus murais impressionam pela dimensão e pelo tratamento dos temas, e embora obedeçam aos constrangimentos e orientações obrigados pela encomenda, mostram por vezes humor e irreverência. As pinturas murais que fez nos anos de 1940 para duas Gares Marítimas são contemporâneas da emergência de um movimento artístico de oposição ao regime, o neorrealismo, protagonizado por jovens artistas antagónicos dos modernistas, que abraçaram entusiasticamente o modelo dos muralistas mexicanos e a quem Almada Negreiros não deixou de estar atento. Esta exposição dá a conhecer os murais deste pintor português, em particular nas duas Gares Marítimas, importantes pela sua extensão, o seu conteúdo político — causador de uma polémica que quase levou à sua destruição pelo governo de Salazar — e testemunhos de um possível diálogo com a pintura mural da América Latina

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